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Acorda contrariada e aturdida. O olhar desorientado percorre a sala escurecida, ainda mergulhada no breu da noite. Os pés gelados pousam no encosto de um sofá, nas suas costas sente um calorzinho bom e aconchegante. A fonte de calor é macia e mexe-se suavemente encostada a si. Pelo vidro da janela, logo acima da sua cabeça, escorre a luz cálida do candeeiro da rua, numa perspectiva que não lhe é familiar.

Demora alguns instantes a compreender onde se encontra: na casa pequenina da avó Joana. Outra vez. Fugiram a meio da noite, esbaforidas e amedrontadas, pela rua fora, com os mais pequenos de braçado, em passo apressado, a respiração ofegante do cansaço e do medo, como malfeitoras a monte. Outra vez.

Da cozinha volteiam as palavras abafadas mas veementes da avó, o choro empastelado e fanhoso da mãe, o tilintar metálico de uma colher a bater distraidamente na chávena de chá. Mexe-se devagar para ver as horas no telemóvel e a irmã pequenita aconchega-se mais a ela, no remanso do sono. Levanta-se com delicadeza e veste em silêncio as roupas do dia anterior, penduradas nas costas de uma cadeira.

Pela porta entreaberta, observa em segredo as mulheres na cozinha. A mãe, sentada à mesa, embala o irmão bebé, que dorme um sono agitado, entrecortado de soluços. Chora baixinho e vai debitando queixumes ininteligíveis, numa articulação tolhida pela turgência ensanguentada dos lábios e pelo inchaço do nariz. A avó ralha, de pé, encostada ao fogão, a mão furiosa a rodopiar a colher no chá fumegante. “Isto não é vida, minha filha, estou fartinha do to dizer”.

A rapariga encosta-se à parede, escondida na obscuridade da madrugada. Percorre a sala com o olhar, tentando vislumbrar a mochila e – já agora – uma saída para o novelo emaranhado que é a sua vida. Gostaria de comer uma torrada, derreter o gelo dos pés com uma chávena de chá quentinho, mas não tem coragem de entrar na cozinha. Não lhe apetece enfrentar agora o rosto novamente desfigurado da mãe, não quer sentir o olhar piedoso e triste da avó.

Fecha a porta devagarinho e sai para o ar frio e cinzento da madrugada. Caminha alguns metros na direcção da paragem e estanca quando se lembra que não tem dinheiro para o autocarro. Também não tem senhas, nem o cartão da escola para almoçar, nem os livros para as aulas do dia. Todas as coisas de que precisa estão na sua casa, esquecidas na ânsia de escapar à sanha animalesca do pai. Voltar atrás não é uma opção, decide, enquanto corre o fecho do casaco até ao queixo e apressa o passo, que o caminho é longo.

Chega à escola esbaforida e encharcada pela chuva que teimou em cair, logo naquela manhã, a inaugurar o Outono. A aula já começou há muito. O professor suspende as palavras quando ela entra e todos os olhares voam para a sua figura esgazeada e patética. “Outra vez atrasada, não é verdade?”, reclama o professor. Oferece-lhe um “desculpe” sumido e distraído de quem tem mais em que pensar.

“Isto assim não pode continuar”, torna o professor. “já tens várias faltas de atraso e de material, não é verdade? E agora, pelos vistos, vais ter mais! Onde está o teu livro? Fizeste os trabalhos de casa? Anda, tira os materiais e começa a trabalhar!” A rapariga cerra os dentes com força para não deixar passar a zanga. As narinas dilatam no esforço de tentar controlar a respiração. “Olha-me este agora!”, remorde entre dentes. O professor não entendeu, mas os colegas das mesas mais próximas ouviram o seu comentário e olham-na, num misto de expectativa e reprovação. “O que foi que disseste?”, interroga o professor. “Responde-me”, insiste, perante o silêncio dela. “E olha para mim, que estou a falar contigo! Estás a ouvir? Onde está o teu livro? E o caderno? Não trazes nenhum material?”

A cada nova interpelação do professor, a raiva e a frustração atravancam-lhe a garganta como uma represa prestes a rebentar. “Ó pá, não me chateie!” dispara, com a fúria irracional de um animal acossado. O professor revida, arreliado e sentido: “Mas isso são modos? É essa a educação que a tua família te dá?”

A menção da palavra ‘família’ é um fósforo aceso no cenário de guerrilha que foi a sua noite, no carrocel desgovernado das suas emoções. “Não lhe admito que fale da minha família!”, grita-lhe com o fôlego que ainda lhe sobra. Levanta-se resoluta e ofendida e caminha para a saída como rainha no exílio. “Bardamerda”, foi a última coisa que disse, antes de bater com a porta com quanta força tinha.

 

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publicado às 19:43


3 comentários

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De Anónimo a 17.10.2016 às 14:46



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De manel a 05.11.2016 às 17:13

estou estendido
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De MC a 06.11.2016 às 17:55

Às vezes a vida vira-nos do avesso, Manel. :(

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Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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